18.5.10

História, educação e coisa e tal.

 Era um dia qualquer da semana, tomava algumas cervejas pra celebrar a aprovação de um conhecido em uma universidade quando um muleque (um cara com três anos a menos que eu), me indagou a respeito do ofício de historiador, não no sentido marcblochiano da discussão, afinal ele nem conhece esse sentido, e sim nos termos de qualidade dos atuais professores de história de cursinhos, fiquei surpreso, afinal não é a todo momento que esse tipo discussão se faz longe das salas da universidade.
 "Tudo bem vamos a discussão", foi o que pensei com um meio sorriso no rosto, a princípio pensemos o seguinte, o professor de história não viveu a maior parte do que ele ensina, ele sabe o que ele aprendeu pelos livros, e que pode confirmar parte daquilo pelo que vivencia em seu cotidiano, certo?
 Exemplifiquemos; entendamos fatos e acontecimentos históricos como um quebra-cabeça, com o passar dos anos esse quebra-cabeça vai perdendo peças, afinal muito das peças é a memória de quem viveu o fato, para acontecimentos muito antigos onde todos que o presenciaram já estejam mortos, há apenas algumas peças, a função do historiador é utilizar de sua interpretação pra recriar as peças faltantes do acontecimento, e assim recria-lo, não nescessáriamente fiel mas respaldado em documentos, e a cada historiador, novas peças por conseguinte de novas interpretações, e assim a história se forma um eterno quebra-cabeça - tentava passar aquelas noções ao rapaz quando o churrasco chegará quentinho a mesa.
Indiscutivelmente o IHGB (instituto histórico geográfico brasileiro) trouxe benefícios ao estudo das ciências humanas e principalmente em firmar uma história como "oficial", essa história é importante entre outros motivos para o fortalecimento do sentimento nacionalista na população, pensem comigo, você só defende aquilo a que tem apreço, certo? é mais ou menos por isso que a história oficial existe, firmar o nacionalismo e provocar a defesa da pátria que agora, tem uma história, tiradentes de traidor do império virou herói e por ai vai..., mas o ponto em que eu queria chegar era, essa não é a única história, existem inúmeras outras, a "história oficial" é apenas uma versão, se pegarmos centenas de pessoas para contar o que aconteceu no mesmo dia, vamos ter centenas de histórias individuas sobre um mesmo dia, e mesmo que duas pessoas passem o dia juntas, fazendo as mesmas coisas, cada uma vai ter uma versão do que aconteceu no dia; Por que não seria assim na hora de se ensinar história? a formação dos professores é diferente, a forma didática diferente, os livros utilizados diferentes, as mídias utilizadas de forma diferente e em suma, as pessoas são diferentes, daí uma interpretação dos fatos vai levar a uma exposição dos fatos condizente ao que cada um entendeu.
 O professor de história de um cursinho tem de apresentar outros fatores além do conhecimento, como boa dinâmica e oratória, e uma boa compactação do assunto para o devido objetivo, o vestibular, professores que tenham esses atributos são produtos da seleção que o sistema capitalista produziu na educação, o que  por momento não cabe aqui a discussão (e sim a primeira que agente iniciou), é fato que escrevi aqui mais do que disse ao rapaz, mas acho que deu pra ele pegar o pensamento, que em meio aquilo o fez botar o dedo na ferida ao indagar:
 - E sobre religião?.
 Talvez nem ele soubesse o que queria perguntar, mas entendi que ele queria saber, provavelmente se eu era ateu ou não (ou mesmo testar minha pouca idade), tenho pra mim que o historiador, e prestem atenção na contradição que tenho comigo mesmo, tem de ser neutro, ainda que isto seja impossível, vejam bem, o cara nasceu, cresceu, foi educado e vive no mundo de uma forma, vocês acham que ele tem alguma influência? Claro! todas ao seu redor são influências, então não há como dizer que alguém é neutro na forma de contar uma história, seja ela informal ou didática, o jeito de falar, pensar, se articular, etc... tudo isso tem informações do seu tempo, tomemos de exemplo um filme sobre um acontecimento passado, "Descobrimento do Brasil" por exemplo, toda vez que alguém fizer um filme sobre este tema será diferente, uma nova versão, e se for feito em épocas diferentes o abismo se intensificará.
 O neutro a que me refiro é no sentido de ser ao máximo imparcial no ensino de história, e assim, provocar o aluno, fazer este procurar conhecer e defender o seu respectivo lado/ponto de vista, na religião não é diferente, independente da religião do professor ele tem que contar as atrocidades e os benefícios do cristianismo, ateísmo, islamismo, judaísmo, etc... não é a toa que os professores de história tem certa fama de ateístas, muitos sabem que grande parte dos feitos da igreja tinham interesses distintos do "divino",  fazer o aluno pensar por si é a meta que todos professores tem de se dar, a cerveja acabará naquela hora e fui pra casa dormir.


nota: Caso haja alguma referência a outra obra no texto foi feita pelo meu inconsciente. 

4 comentários:

Dan disse...

O maior parágrafo que já vi. #ficadica

Carlos Augusto Limm disse...

#valeuadica

Almir disse...

ateu ou nao ateu? seja claro e objetivo...

Guthor disse...

Ateu graças a deus!